terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Dança, barquinho meu!

O meu barco já não dança
Ata-lhe uma corda a florir inteira
Só cabo viril entrançado afiança
Levar ao mar barco ou traineira

Mas meu barco detém as cores
do amor que jaz a seus pés
Carmesim paixão e azul das dores
corta-lhe o perfil de lés a lés

Molha-o uma água fria e diáfana
Tempera-lhe a fronte ao de leve
Solta-se-lhe a corda liana
a lembrar-lhe o amor breve

A terra não é o seu destino
Nem do alto mar conhece ventura
Queda-se certo mas sem desatino
Enquanto o sol lhe sabe a ternura

A corda abre-se num choro salgado
que a areia fina não detém
Sabe-se atada ao seu amado
Por amor dele se faz refém

A coisa nua e crua

Ontem ouvi a voz externa de um escritor, coisa rara. Deixou-nos entrever o segredo da sua produtividade: escreve sentado a uma secretária, de costas para os livros e de frente para uma alva parede nua. Dei-me conta de que a minha pobre e mal decorada casa, tão cheia de falta de coisas, afinal está tão vazia de coisa alguma. As coisas são causa séria de distracções, mas distraidamente apontamos o dedo à inexorável falta de tempo ou àquela outra causa que não coisificando o problema, eufemisticamente, nos justifica - a falta de uma tal de diponibilidade mental. As coisas estão lá todas mas passa o tempo sem que nasça coisa nova. É sempre a mesma coisa. As coisas não se mexem mas mexem connosco, alteram a nossa percepção. Mas um olhar que apenas pousa sobre as coisas, não passa de um olhar perturbado - não vê coisa nenhuma. É que nada se espreme das coisas, as coisas estão dentro de nós. É dentro que escutamos e dentro que ganhamos voz. As coisas, essas, ficam as mesmas. Já agora, o que é uma coisa?

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Poesia II

Só o que fica é poesia.
Fica o que não pode e o que podia.
Nasce de novo o dia...
Isto sim é poesia.
Na carne esfriam os mais audazes desejos
e fica a palavra que cria a morte
que sobre deste dia
de todos os dias.
Ninguém nasce do Sol
E as asas do homem
o astro queima sem piedade
sem memória da idade
do crepúsculo dos deuses.

Borrão poético II

Sonhar alto é içar velas ao vento. Sonha baixo aquele que joga no amado o sobressalto de viver em mar alto. Sair de um porto seguro sem risco de molhar o pé em água fria não é sonho, é ânsia de quem traz a vida em embarcação ancorada, que não sabe navegar por águas nunca dantes navegadas. Baixinho o medo fala mais alto e o desamor é amor que se fez pequenino. Numa pocinha de água tépida continua-se a jogar os sonhos futuros em barcos imaturos. Anda barquinho aventura-te lá, arrisca a tua estrutura a ver no que isto dá. As minhas mãos dão-te força e a areia molhada que te forma é matéria que não esboroa. Vai sem medo e voga à minha vontade até que ache modo de vagar contigo quando para isso o meu amor tiver idade. Conheço-te os sonhos, as ânsias e os medos. Conheço-me os sonhos, as ânsias e os medos. Amo-te assim num amor pequenino, amo-te baixinho neste meu cantinho. Empurravas tu este barquinho e de medo encalhei e caíste ao charco. Ao mar alto não foste dar não sei porquê tão precoce desamar. Cansados mas em terra firme deixamo-nos ficar. Não é torpe nem vil um amor pequenino.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

David Lynch ou outro consolo

Sou uma triste
Mas tenho os meus consolos
E não invejo o de ninguém.

Se a música não toca dentro de mim
ouço o silêncio
e logo o ouço em David Lynch
Silênciiiiiiiiiiiiiiiiiiiio...
E já não estou tão só assim.

Não há luzes da ribalta
que ponham fim
nisto que se não dentro
anda sempre perto de mim.
E é escuro, pura noite...

A vida não existe
O que são beijos...
Acenos que ninguém vê
numa estação de gasolina
sem carro à vista.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Linguagem superior

Se não podemos pela experiência, curta e tão cheia de aleatório, desenvolver uma linguagem superior, podemos pelo menos formar-nos no Belo, mas essa aprendizagem teria de começar bem antes dos 12 anos. Assim sendo, não há remédio, sistematização alguma, permanente que fosse, no nosso ser adulto, nos "obrigará" à linguagem que apenas pressentimos como uma saudade difusa. Distantes da necessidade primordial do uso dessa linguagem, vivemos de lampejos do Belo, acariciamos secretamente o albatroz que há em nós e olhamos cúmplices para alguns da nossa espécie que se cruzam fugazmente no nosso caminho, sem, porém, podermos estar certos se foi real a nossa conversa secreta, pois esta não parece ter qualquer verosimilhança com o ser que logo de seguida vemos reflectido no espelho.